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A DEPURAÇÃO DO LUDISMO * (maio 2007)
A arte sempre tem algo de ludismo. Por mais que o pintor
diga que o ato criador seja intuitivo ou resultado de um
processo técnico, é no momento de fazer que se realiza a
grande mágica de estabelecer um mundo próprio, desenvolvendo
uma pesquisa que exige a capacidade de estabelecer um
microcosmo com sua linguagem particular.
Nascido em Uruguai, em 1956, mas radicado em São Paulo,
Brasil, desde 1965, Alfonso Prellwitz tem sua origem
artística justamente no jogo entre formas e cores iniciado
aos 8 anos, quando traçava triângulos ou retângulos,
dividia-os ao meio e pintava apenas uma das partes, gerando
um ludismo visual.
Dentista de formação, a arte ficou adormecida por algum
tempo, mas renasceu nos anos 1980. Significativamente, foi
quase uma retomada da construção plástica da infância,
deixando claro que o seu reino é o das cores e formas, que o
levam a um mergulho em infinitas possibilidades de variação.
Ao encontrar no criador e educador artístico
João Rossi um
incentivador, Prellwitz prosseguiu em sua brincadeira cada
vez mais profissional até dedicar seu tempo integralmente à
arte. Isso significa uma escolha de vida e a imersão em uma
poética com algumas características marcantes.
A mais importante parece ser a fidelidade a um pensamento
geométrico em que predominam retângulos preenchidos por
massas de cor. A alternância de cores com a presença de um
círculo, sinal do indivíduo que dialoga com o todo, instaura
uma poética em que o eu conversa com o mundo.
Existe ainda o uso de traços em pretos que diversas vezes se
interligam com as placas dessa cor sobre as quais as obras
estão montadas. Estabelece-se assim a noção de infinito,
muito forte no contexto de uma pintura que, seja nas linhas
precisamente delineadas ou na construção de círculos que se
integram com a delicadeza de elementos religiosos orientais,
constrói o próprio mistério.
Autodidata e amante das experimentações com materiais,
Prellwitz encontrou como pares no universo da arte Mondrian,
Klee e Volpi. Eles são homenageados com ludismo e técnica,
com a tomada de estruturas e temas, dando-lhe novas leituras
com as próprias cores, que mistura de modo a não conseguir
repeti-las.
Com construção progressiva de um sutil lirismo, Alfonso
Prellwitz acentua a leveza de seu trabalho na proporção em
que realiza pesquisas monocromáticas e se debruça
principalmente sobre os ocres, amarelos e azuis como
matrizes de um pensamento plástico em que o jogo com formas
e tonalidades é habilmente depurado.
Trecho de texto * (janeiro 2010)
A base do pensamento do artista reside no diálogo com
quatro integrantes essenciais do mundo da arte: o ponto, a
linha, o plano e o volume. Assim, o quadrado expande sua
capacidade de criar um mundo e, também de implodi-lo.
Ser “quadrado” é associado ao conservadorismo. Prellwitz
aponta o oposto. Dá ao quadrado diversas falas e gera amplo
número de sentidos. O quadrado motiva porque oferece
desafios. Desvendá-lo é, em conseqüência, mergulhar no
universo da criação, o que leva o público e o criador a
encontrarem a si mesmos.
*
Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil). |
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